A tradutora Rosa Freire d’Aguiar recomenda cinco livros para imergir na Paris do século 19

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FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Desde sempre Paris inspirou escritores — os nativos e os adotados. Mas foi no século 19 que a cidade se tornou personagem constante na literatura. Foi também no século 19 que moldou a cara que tem hoje, graças às obras de saneamento e embelezamento dirigidas pelo barão Haussmann, a partir de 1860, a mando do imperador Napoleão 3º. O barão foi um prefeito bota-abaixo, derrubou milhares de construções da Paris medieval, transformou ruas tortas em retas, promoveu a especulação imobiliária, expulsou os mais pobres para a periferia, e criou novos hábitos que foram muito além da reforma urbana. Desde então, a cidade não mudou tanto assim. E é essa Paris do século 19, anterior e posterior ao barão, que perpassa os cinco livros abaixo. Foram escritos por mestres do folhetim, do realismo e do naturalismo. Descrevem, em geral magnificam, a cidade e trançam suas lendas. Nenhum desses romances é propriamente sobre Paris, mas de tal forma a cidade e seu povo se confundem com a ficção que é como se fosse ela a protagonista onipresente, ora esgueirando-se, ora se revelando.

Les mystères de Paris

Eugène Sue (Albin Michel, 1977)

Eugène Sue era um jovem da jeunesse dorée parisiense. Até o dia em que vestiu uma camisa remendada, um boné na cabeça e virou freguês de uma taberna mal-afamada num bairro miserável. Daí nasceu “Les mystères de Paris”, certamente o melhor romance popular para se conhecer a cidade dos anos 1820-30. Primeiro saiu em folhetim, por um ano e meio entre 1842 e 1843, depois, em dez volumes que fizeram imenso sucesso. Tudo gira em torno do príncipe Rodolphe que vai para as ruas disfarçado e convive com criminosos, prostitutas, açougueiros, agiotas. E, não podia deixar de ser, com a delicada Fleur de Marie. Por eles a gente descobre as feições medievais da cidade em torno da île de la Cité, do Marais e da Bastilha. Aprende que os jardins dos Champs-Elysées, hoje com teatros e restaurantes estrelados, era o antro da bandidagem, dos assaltos e assassinatos. E que a Notre-Dame era cercada de casebres miseráveis encostados em seus sólidos muros, o que criava ali uma das zonas mais sórdidas de Paris. Os “Mystères” nunca foram traduzidos na íntegra no Brasil. A edição acima, em francês, tem prefácio de Karl Marx, fã do autor. Numa época em que Balzac era o medalhão, Marx defende que grande, sim, era Eugène Sue, pois escreveu sobre as classes trabalhadoras, enquanto Balzac preferiu ficar com a burguesia e a nobreza.

O Pai Goriot

Honoré de Balzac (Trad. Rosa Freire d’Aguiar, Penguin/Companhia das Letras, 2015)

Goriot, ex-fabricante de macarrão, suas filhas que o exploram vergonhosamente, e Rastignac, protótipo do arrivista, são os personagens desse romance da “Comédia humana”, lançado em 1835. Balzac, ele mesmo um provinciano que chegou a Paris muito jovem, conhecia de dentro a alta sociedade, seus gostos, hábitos, o que comiam, bebiam, vestiam. E sai esmiuçando a vida dessa gente chique remanescente do antigo regime e que morava para os lados das atuais Ópera e Gare Saint-Lazare. Em contraste, ele pinta as andanças do Pai Goriot pelo Quartier Latin e seus restaurantes populares em torno da Sorbonne. O velho Goriot morava na Pensão Vauquer, ali pertinho do Panthéon, região ainda insalubre e pobre. A pensão ficava na atual rua Tournefort, que escapou das reformas do barão Haussmann e está lá, tal qual. É também nesse livro que se lê uma das mais famosas cenas da “Comédia humana: Rastignac, genuíno alpinista social, no cemitério de Père Lachaise, vendo a seus pés a cidade e lhe lançando o desafio de conquistá-la.

Ilusões perdidas

Honoré de Balzac (Trad. Rosa Freire d’Aguiar, Penguin/Companhia das Letras, 2011)

O notável neste romance de 1837 é se embrenhar nos meandros do universo da imprensa e do livro em meados do século 19. O herói Lucien de Rubempré é o típico provinciano em busca da consagração literária em Paris. Tal qual foi Balzac, aliás, que recorre à própria experiência para tratar dos jornalistas estipendiados, da florescente imprensa marrom, dos aspirantes a escritores, dos editores e livreiros. Disso tudo sai um admirável retrato de Paris nos anos da Restauração (1815-1830) em que os Bourbons voltaram a reinar. Como sempre, Balzac dá um show de vocabulário quando descreve ofícios e modas. Conhece cada detalhe dos chapéus, dos frufrus, das gravatas, dos meios de transporte. E tudo isso em torno de personagens tão bem construídos que, se duvidar, a gente acha que são os antepassados daqueles que, hoje, estão ao nosso lado no balcão do bar, no ponto do ônibus, na padaria.

A educação sentimental

Gustave Flaubert (Trad. Rosa Freire d’Aguiar, Penguin/Companhia das Letras, 2017)

Esse romance de Flaubert tem uma peculiaridade: a descrição, mil vezes melhor que a de um historiador, da Revolução de 1848 em Paris, quando o povo se levantou contra o rei Luis Filipe e tomou conta da cidade. Flaubert tinha presenciado a revolução, que eclodiu em fevereiro e teve uma segunda onda em junho. No romance, de 1869, ele descreve-a pelo herói romântico Frédéric Moreau, que — falta de sorte — ia ter justamente no primeiro dia da revolução o sonhado encontro com a mulher mais velha por quem se apaixonara. Mas naquele dia os parisienses invadiram e saquearam o Palácio das Tuileries, onde morava o rei. Entre barricadas, prisões em massa, repressão no sangue, Paris literalmente pegou fogo. E Frédéric sai andando, para nos contar o que viu nos bairros populares, no Louvre, em Montmartre. Só essas descrições já justificariam a leitura de “A educação sentimental”. Mas tem mais: é nesse romance que Flaubert destrincha mais a fundo os negócios, as vigarices e libertinagens dos nouveaux-riches que pulularam nos anos de Luis Filipe, por excelência os de ascensão da burguesia.

O regabofe

Émile Zola (Trad. Daniel Augusto Gonçalves, Livraria Civilização, 1982)

Este livro de 1871 é um dos 20 que compõem a obra “Os Rougon-Macquart”, dedicada à sociedade parisiense durante o Segundo Império (1852-1870). É a edificante história de Aristide Rougon, que chega a Paris para se dar bem. O irmão é ministro e ele consegue, à custa de pilantragens, ter acesso aos planos de obras do barão Haussmann, que previam centenas de desapropriações. Aristide se lança: compra na bacia das almas alguns imóveis, embolsa as indenizações, faz vendas fictícias, e em pouco tempo é um nababo farrista e cercado de amantes (aliás, sua mulher também terá os seus), transitando no que Zola chama de “anos do ouro e da carne”. Zola descreve em minúcias as transformações urbanas de Paris, os novos cafés, teatros, a novidade do asfaltamento de ruas, da iluminação elétrica, das lojas de departamentos que sufocam o pequeno comércio. O pano de fundo é sempre a sociedade capitalista em que o dinheiro é o motor principal das relações humanas. Mas para quem viveu os tempos da Lava Jato, da valsa despudorada entre políticos e empreiteiras, esse romance tem um gostinho especial.

Rosa Freire d’Aguiar é jornalista, tradutora e editora e é radicada em Paris. Nas décadas de 1970 e 1980, foi correspondente na capital francesa das revistas Manchete e IstoÉ. É autora de “Memória de tradutora” (Escritório do Livro) e editora da coleção “Arquivos Celso Furtado” (Contraponto). Recebeu diversos prêmios por seu trabalho de tradução, entre eles o Jabuti (2009) e o prêmio da União Latina de Tradução Técnica e Científica (2001).

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